Monday, 16 June 2008

A Língua Portuguesa e o (Des)Acordo Ortográfico

Das notícias mais tristes do Ano da Graça de Nosso Senhor de 2008.
O Governo aprovou esta quinta-feira a proposta do segundo protocolo modificativo ao Acordo Ortográfico da língua portuguesa, de 1991, comprometendo-se a adoptar as medidas adequadas para «garantir o necessário processo de transição, no prazo de seis anos».
A decisão, que ainda terá de ser sujeita à apreciação do Parlamento e do Presidente da República, Cavaco Silva, foi anunciada pelo ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, no final do Conselho de Ministros.
Pretende-se com o Acordo «a unidade da Língua» - na escrita e só na escrita, naturalmente.
Acreditam os especialistas, e não apenas eles, que, unificada, a Língua portuguesa terá outra força, ganhará em «poder de afirmação» nas instâncias internacionais.
Uniformizar a escrita para 200 milhões de falantes.
Antes de mais e qual “Velho do Restelo” afirmo peremptoriamente que não adoptarei de forma voluntária este novo acordo ortográfico.
Se, compulsivamente, for obrigada a adoptá-lo, fá-lo-ei sob protesto...vejamos o que mudará...

Consoantes mudas
Quando um dos termos de uma sequência consonântica é proferido na pronúncia culta da língua, como em “pacto” ou ficção”, fica tudo como está.
Se é invariavelmente mudo, como acontece nas palavras “acto”, “colecção” ou “director”, o “c” cai sempre. Pela mesma lógica, cai o “p” em “Egipto” ou “peremptório”, sendo que neste último caso o “m” dá lugar a um “n”: perentório.

Acentos
A conjugação na terceira pessoa do plural do presente do indicativo de verbos como ter, vir e ver - têm, vêm e vêem - perde o acento circunflexo. Passa a escrever-se, por exemplo, “reveem”.
O acento circunflexo sai também de cena nas paroxítonas (palavras com acento tónico na penúltima sílaba) terminadas em «o» duplo («vôo» e «enjôo»), usado na ortografia do Brasil, mas não na de Portugal e da terceira pessoa do presente do indicativo ou do conjuntivo de «crer», «ler» e «dar» e os seus derivados. Passará a escrever-se: creem, leem, deem e veem.
Já em “dêmos” (presente do conjuntivo), continua a aceitar-se o acento, a título facultativo, para evitar a homografia com “demos” (pretérito perfeito do indicativo).
A excepção é a forma verbal “pôde”, que preserva o acento.
Também são banidos os acentos agudos e circunflexos que ainda se mantinham em algumas palavras graves, como em “pára” ou “pêlo”, que passam a não se distinguir graficamente de para e pelo.

Hífen
Os redactores do novo Acordo Ortográfico investiram um especial esforço na regularização do uso do hífen, sobretudo nas palavras formadas por prefixação.
Algumas regras:
Quando o prefixo termina em vogal e a palavra seguinte começa com “r” ou “s”, cai o hífen e dobra-se a consoante: “contrarrelógio”.
Quando o prefixo termina em vogal e a palavra seguinte começa por uma vogal diferente, não se usa o hífen: “antiaéreo”.
Quando o prefixo termina com a vogal que inicia o elemento seguinte, usa-se o hífen: “contra-almirante”.
A excepção a esta regra é o prefixo “co-”, que se aglutina com o elemento seguinte mesmo que este se inicie com um “o”: “coocupante”.
Um dos exemplos que o texto do Acordo avança é “coordenar”, que se torna graficamente indistinguível de “coordenar” no sentido de dirigir ou supervisionar.
Os hífenes caem também em algumas locuções nas quais ainda iam sendo usados, como “fim-de-semana”.
Mas abrem-se excepções para outras, nas quais esse uso foi considerado mais generalizado, como “pé-de-meia” ou “cor-de-rosa”.
Uma alteração que será provavelmente mais difícil de interiorizar é a supressão do hífen em todos casos em que uma forma monossilábica do verbo haver se une à preposição “de”.
Passará a escrever-se, por exemplo, “hei de” e “hão de”.» (excerto de artigo do jornal Público)

Outros exemplos flagrantes: ação (em vez de acção); adotar (adoptar); fação (facção); ótimo (óptimo); receção (recepção); ou o culminante úmido (húmido).

E ainda com a incorporação do k, w e y, o alfabeto deixará de ter 23 letras para ter 26.


Barbarismo: «biópico»

Falta de palavras?
Visto que hoje em dia não só os jornais de referência influenciam a língua portuguesa, cito uma frase de um pasquim que li aleatoriamente enquanto aguardava a minha dose de cafeína num balcão de uma pastelaria da capital:
«O actor [Johnny Depp] está em conversações para vir a interpretar o papel de Freddie Mercury num filme biópico sobre os Queen, que deverá ser produzido por Robert de Niro.»
Quantos leitores daquele jornal saberão o que significa o barbarismo «biópico»?
Em inglês, é uma amálgama, a partir de bio(graphical) + pic(ture).
Em português....não é nada e sinceramente nem é necessário.
Vasco Botelho de Amaral sabiamente diz: «Infelizmente, não é só a introdução desordenada de vocábulos estranhos que se verifica nas páginas dos jornais e nas emissões radiofónicas.
A estrutura da Língua, o jeito característico da sintaxe portuguesa vai-se todos os dias alterando em subordinação às construções estrangeiras» (Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 125).

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